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CARTA DE PERDÃO AO MEU PAI


"Olá pai",

Não me recordo de usar algum dia esta expressão, a não ser nos meus pensamentos de adolescente em que te questionava o motivo pelo qual, nunca procuraste os teus filhos.

O motivo pelo qual conseguiste viver tão perto e tão longe de nós, do Barreiro ao Monte da Caparica seria um saltinho, caso houvesse intenção e amor no coração.

Pelo mesmo motivo, me questionei alguns anos após partires, o porquê de também nunca te ter procurado, mas era miúda e estava magoada. Hoje, não me arrependo, pois de nada serviria carregar essa cruz, as coisas são como são e não tinha a maturidade que tenho hoje.

Nunca te conheci como homem, nem como pai, as memórias dos 3 anos que vivemos juntos, são apenas os relatos, que ouvi toda a minha vida.

Relatos de ciúme, violência e álcool, histórias tristes, carregadas de drama.

Nunca te entreguei qualquer trabalho da escola, feito especialmente para o dia do pai, nem me acompanhaste nas fases mais importantes da minha vida, não conheceste o teu neto nem aprovaste os meus namorados.

Naquele tempo, eramos quase uma aberração, se vivíamos numa família monoparental, não fazendo eu ideia naquela altura, que as famílias mais disfuncionais, encontram-se muitas vezes, nas estruturalmente normais.

Sei que me levavas para as casas de meninas à noite e que na maioria das vezes, chegavas a casa tão bêbado, que tanto eu, como o meu irmão, nos escondíamos debaixo da cama apavorados.

Nunca me bateste, mas a minha mãe, sofreu imenso nas tuas mãos, as tuas frustações e falta de confiança.

Felizmente não guardo essas memórias, pelo menos no meu consciente, acredito que as que ainda não consegui libertar do meu subconsciente, me têm impedido de viver uma relação saudável e estável.

Contudo, escrevo-te com esse intuito, o de me libertar, de te libertar a ti também, desta energia que não nos serve mais, destes traumas e crenças que me impedem de prosperar nos meus relacionamentos.

Sem mágoas, ressentimentos ou arrependimentos, perdoo-te e peço-te perdão pai.

Descansa em Paz,

Mónica


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